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Um sítio pretensamente de humor e pós-moderno |
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A falta de imaginação veio para ficar. Não nos sai nada. É assim que mais uma vez promovemos a carta de um leitor à condição de crónica. Comprámos vários medicamentos à venda nas farmácias para estimular o córtex cerebral, mas o oceano continua adormecido como um lago.
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Exmo Sr. Sou um pobre e amargurado estudante da cadeira de Introdução à Economia, do 9º ano, curso nocturno. No manual da disciplina vem lá escrito, preto no branco, que há
uma relação entre o salário e o emprego, relação
essa comprovada empiricamente. Salários mais baixos levam a que
os empreendedores tenham menos receio de criar postos de trabalho. Li num livro que em França, entre 1982 e 1994, a parte dos salários no valor acrescentado das empresas baixou de 69% para 60%. Apesar desta contenção salarial, assinalável diga-se, a taxa de desemprego passou de 8% para 12,4%. Isto não pode ser a excepção que confirma a regra, nem estamos em presença de uma lei estatística, que como se sabe é tendencial. Fiquei chocado. Ensinam-me um postulado que não é validado
pela realidade, segundo o velho método experimental. O saber objectivo
não é uma questão de opinião, de fé.
Não se pode confundir os desejos com a realidade, entrar no subjectivismo
arbitrário. É preciso distinguir as convicções dos factos, como chamou à atenção o sociólgo Max Weber. O saber económico pelas suas características é facilmente contaminado pela ideologia, torna-se propaganda. E já agora que me estão a vir as ideias à cabeça,
isso da flexibilidade laboral (adoro a ambiguidade e imprecisão
dos conceitos) ser responsável pelo baixo desemprego nos EUA e
alto desemprego na Europa deixa-me algumas dúvidas, se calhar,
as coisas não são tão lineares. É que li que
os números do desemprego nos EUA são dados pela inscrição
nos centros de emprego. Ora como uma pessoa só tem direito a 5
anos de subsídio de desemprego, pensará duas vezes antes
de se inscrever como desempregado. Para além disso nas estatísticas
não contam os cerca de 1,5 milhão de pessoas (é obra)
que estão nas prisões, nem os milhões de pobres e
sem-abrigo que pura e simplesmente desistiram de procurar emprego. O Prémio
Nobel da Economia Robert Solow diz que as prisões são o
subsídio de desemprego americano. Também ponho a seguinte
questão: um trabalho que não permite viver com dignidade
é um verdadeiro emprego? Por que será que as estatísticas
sobre o desemprego tendem a não reflectir a realidade? Li que o
desemprego real na EUA andará perto do valor médio dos países
da OCDE. Na Inglaterra, durante a era Thatcher (anos 80), apesar da flexibilidade laboral, que eu saiba, não houve mais criação de emprego em comparação com outros países europeus mais rígidos. O que existiu foram muitas modificações dos critérios de cálculo do desemprego, de modo a apresentar este com o valor o mais baixo possível. É o triunfo da realidade virtual.
O mundo é composto de mudança, só que esta pode dar para o torto. Outros valores mais altos se levantam: os do dinheiro. De meio passa a fim. As inovações não fazem sentido se não se tiver em conta as consequências ecnómicas, sociais e ambientais (é o caso da actual globalização). O conceito de "destruição criadora" de Shumpeter é infeliz. A desigualdade e a pobreza na Inglaterra e EUA aumentaram nas últimas décadas de liberalismo. Foi a revolução conservadora iniciada por Thatcher e Reagan (EUA) nos anos 80 (política económica chamada do lado da oferta). Pode-se dizer que começou a guerra aos assalariados, uma luta de classes ao contrário. A parte dos salários no rendimento e na riqueza tende a diminuir (caso de Portugal). Muitos terão menos, para que uns poucos tenham mais. É o reino da cupidez e da ganância: uma alienação. O breve período das vacas gordas, do Estado Social do pós-2ª Guerra Mundial acabou, apesar do aumento constante da produtividade: informática, robótica, diminuição dos custos dos transportes e comunicações, etc. Nada será como dantes. é a hora dos sacrifícios eternos. O poder parece a ser o da plutocracia. Florescem os salários de pobreza nos países mais ricos. Há uma regressão no desenvolvimento, como já foi frisado. O caso da Inglaterra é paradigmático. Houve diminuição da carga fiscal sobre os que tinham mais e uma diminuição das prestações sociais. A pobreza infantil que pouco antes de 1980 se situava nos cerca de 12.5%, sobe a cerca de 27% após 1990. O trabalho infantil atinge números astronómicos (mais de 1 milhão). Houve uma explosão dos sem-abrigo e um aumento do suicídio dos idosos. Isto é obsceno, imoral. Nos Estados Unidos passou-se algo idêntico. Para o economista Fitoussi existiu uma redistribuição da riqueza às avessas. Os ricos ficaram ainda mais podres de ricos. Qual a validade de tal lógica, desta regressão social e política, deste canibalismo social, que atira para o caixote do lixo o contrato social do Welfare State, do Estado-Providência? É o futuro em marcha-atrás. O progresso não é o progresso dos interesses das elites. As classes médias que se cuidem, chegou a vez delas. Quanto à 3ª idade, pelo andar da carruagem, deverá ser abandonada à sua sorte. Li que na Alemanha um quarto da população disse adeus à prosperidade. Em Portugal a maioria dos reformados recebe pensões inferiores ao limiar da pobreza. Os salários da pobreza e a precariedade laboral, para além de contribuírem (pela insegurança e stress psicossocial que geram) para a queda demográfica (o que é anti-económico), não favorecem a produtividade. Esta tem que ser fundamentalmente qualitativa e isto está ligado ao cérebro, ao capital humano. Este exige qualidade de vida. O futuro passa por aqui. A insegurança quanto ao futuro afecta a qualidade de vida dos cidadãos. Pessoas felizes são mais produtivas, atrevo-me a dizer. Também salários baixos levam à rarefação da procura e consequentemente da produção. É um círculo vicioso e não virtuoso. Basta somar 2+2. Empregos de treta não levam ao desenvolvimento. Uma economia em que grande parte da população vive na pobreza é anémica. Dizem que Ford queria que os seus trabalhadores pudessem comprar os automóveis. Quando em 1914 Ford duplicou o salário dos trabalhadores o Wall Street Journal considerou tal um «crime económico». Também as pessoas também têm de ter capacidade económica para investir na educação dos filhos, sem o qual não há desenvolvimento. Uma maior riqueza corresponde a uma maior produtividade do trabalho e mais tempo de lazer, com algumas excepções (caso de Singapura, Hong Kong, Coreia do Sul...). É evidente que enquanto existir falta de qualidade de vida há trabalho. Se o desemprego persiste, ou há necessidades fundamentais que não são satisfeitas, enquanto outras mais supérfulas o são, tal deve-se a uma organização social disfuncional, incapaz de afectar eficientementeos recursos. Um dos factores para o elevado desemprego na França é não uma insuficiente flexibilidade laboral, mas um excesso desta. A autorização administrativa de despedimento foi suprimida em 1986. Recordo-me que o Japão desenvolveu-se sem praticar a flexibilidade laboral, coisas que muitos esquecem (silêncio selectivo). O desemprego fica caro à sociedade. Significa que há recursos humanos não aproveitados e sofrimento (a curva dos suicídios coincide com a dos desempregados). Isto é uma questão política e não meramente económica. O desemprego gera desemprego. Em 1958 a França tinha apenas algumas dezenas de milhares de desempregados. Em 1966 esse número era de cerca de 3,5 milhões. O fenómeno é geral. Atingiu-se a era do desemprego massivo. Li que na Inglaterra chegou-se ao ponto de um terço das crianças viverem em famílias em que nenhum dos adultos estava empregado. É por acaso que se passa de uma situação de pleno em emprego, na Europa pós 2ª Guerra Mundial, para o desemprego endémico e proliferação da mão-de-obra barata e precária? Na literatura económica «científica» diz-se, por vezes, que o factor trabalho deve ser considerado uma mercadoria (os custos de mão-de-obra são sempre «excessivos»). É fácil ver as implicações de tal: trata-se da repetição da História, agora sob roupagem científica. Isto não é ciência. O ser humano não é uma coisa, um mero instrumento falante. Não existe razão sem humanismo, sem o factor humano. O racionalismo puro é uma aberração. Deve haver concertação e não crispação nas relações de trabalho. Não se deve confundir regras económicas (uma questão política) com leis económicas. Bons ambientes de trabalho são um aspecto importante da qualidade de vida dos cidadãos. É preciso dizer não a uma cultura laboral de 3º Mundo.
Como sabem a produtividade tem crescido mais que a redução do horário de trabalho. Para combater o desemprego estrutural deveria chegar o momento em que se implementaria a partilha do trabalho, a redução da jornada de trabalho (em vez do trabalho parcial). Na Inglaterra cerca de 25% do emprego chegou a ser a tempo parcial, precário e mal pago. A redução para as 35 horas semanais de trabalho em França não fez com que este país crescesse menos que outros. Há que investir na inteligência. A redução do horário de trabalho é condição sine qua non para libertar o cérebro das tarefas rotineiras e mecânicas e assim permitir um maior processamento de informação, em termos quantitativos e qualitativos e consequente maior produtividade, que, não devemos esquecer, deverá ter por fim último a qualidade de vida e não pô-la em causa, como acontece com as doenças profissionais, exagerados ritmos de trabalho, etc. Há custos humanos e ambientais que não são redutíveis ao económico, como pretendem, alguns teóricos. Isto é uma questão civilizacional. A eficiência e a produtividade em particular e a economia em geral não fazem sentido se não produzirem qualidade de vida, a verdadeira riqueza. Não sei se isto se ensina nas faculdades de Economia. A economia deixa de o ser quando há custos humanos e ambientais, passa a ser predação. O amianto provoca dezenas de milhares de mortos, por exemplo.
Também no meu manual li, preto no branco, que a eficiência não é compatível com a equidade (eufemismo de justiça social). Ora bolas! Se não há justiça de que eficiência se trata? Estamos perante, um arbítrio, um malabarismo intelectual, como foi dito antes. Se uma economia não leva à justiça não é eficiente. Mais igualdade (justiça social) leva à eficiência em todos os aspectos. É o caso dos países do Norte da Europa. Não posso estar de acordo com Samuelson e Nordhaus quando dizem que a redistribuição da riqueza gera ineficiência, isto já para não dizer que se trata de uma questão de justiça não ser excluido socialmente. Nada pode legitimar o não acesso de um ser humano à qualidade de vida. Um pobre é menos produtivo do que um não pobre. É difícil ver isto? Também o Prémio Nobel da Economia Arthur Okun diz que "Não é possível ter o bolo da eficiência do mercado e depois reparti-lo equatitativamente". Resumindo, a maravilhosa «ciência» económica actual diz que a eficiência económica pode coexistir com a pobreza. Deste modo a economia de mercado não é ineficiente. Engenhoso, não? Só se torna possível defender a coexistência da eficiência económica com a pobreza se o conceito de eficiência for estrito e estreito (a oferta igual à procura, por exemplo), se houver uma visão mitigada, reducionista da economia. Também uma empresa de material electrónico não pode ser eficiente se os seus trabalhadores ficarem inválidos com tendinites. Estamos em presença de uma produtividade perversa. Mais, a eficiência de uma empresa pode ser menor que as externilidades que provoca e isto só em termos meramente económicos. Espantoso o que se tenta impingir aos estudantes de Economia. O Prémio Nobel da Economia (1993) Robert Fogel salientou a racionalidade económica do empresário que usava a mão-de-obra escrava (antes da sua abolição). Que racionalidade e eficiência são estas que aceitam a escravatura? Querem-me deitar areia para os olhos, fazer engolir sapos? Nesta ordem de ideias o ladrão que aponta a faca à vítima, para lhe tirar a carteira, ou o crime organizado são racionais. Um absurdo. É uma falácia essa
do «homo economicus racional». Muitos comportamentos económicos
não são racionais, até pelo facto de se basearem
em informação deficiente. Na década de 80, nos EUA,
aconteceu a falência das Caixas de Poupança, devido a investimentos
arriscados que fizeram. Volta não volta os mercados vivem em «exuberância
irracional». Pode-se dar muitos outros exemplos. Por outro lado
é impossível um critério absoluto de racionalidade,
a não ser no sentido de que esta sirva o ser humano e não
vá contra ele. Estas dissonâncias cognitivas provocam-me urticária. João Sabugo - Lisboa |
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Exmo Sr. No outro dia andei de táxi e reparei que as bandeiradas pareciam chuva a cair, se me é lícito falar metaforicamente. Tempos depois li, no jornal, que a inspecção económica tinha apreendido alguns carros que possuiam um dispositivo que acelarava as bandeiradas.
Ana Paulino - Porto Exmo Sr. O meu filho mais novo diz que o comunismo é o futuro radioso da humanidade. O mais velho defende que a economia de mercado trará amanhãs que cantam. Qual deles tem razão, ou será que são os dois uns grandes mentirosos? António Gabriel - Amarante
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Queremos saber a opinião dos leitores sobre este sítio. Qual das rubricas prefere?
Pôr a habitual cruzinha (a tinta preta) Entre os leitores que responderem ao inquérito será sorteada uma magnífica máquina de lavar louça em 2ª mão. Este sorteio não está autorizado pelas autoridades competentes.
Tal como havia o socialismo real, também existe a globalização real.
- A Economia veiculada pelos meios de comunicação económicos é uma determinada visão da economia?
- Devido a que grandes grupos económicos controlam meios de comunicação e estes vivem da publicidade, estamos em presença de uma liberdade de expressão mitigada: a liberdade de expressão comercial? - O meu tio da América diz que lá os anunciantes e patrocinadores tendem a influenciar o conteúdo dos programas. É possível?
- O FMI no seu boletim de 23 de Maio de 1994 afirma que os governos da Europa não devem deixar-se intimidar pelas consequências a nível da repartição de riquezas provocada pela reforma do mercado de trabalho. Esta reforma passaria pela revisão do subsídio do desemprego, do salário mínimo legal e por disposições que protejam o emprego (esta ultima só pode ser ironia).
- A OCDE no boletim de Junho 1994 diz que muitos dos novos empregos são de baixa produtividade. Assim só são viáveis se remunerados com salários muito baixos.
- O Banco Mundial considera inapropriada a fiscalidade sobre as multinacionais, para evitar a migração de empregos de baixo salário para países em vias de desenvolvimento. |
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