Um sítio de economia pimba

 

CRÓNICA 11

 

 

Não sei se o leitor terá reparado, mas anda a faltar-nos imaginação.

Essa de aproveitarmos a contribuição do vizinho do 5º Esq. foi uma maneira de tentar tapar o Sol com a peneira. Pelo andar da carruagem não auguro longo futuro a este sítio.

E para não fugir à regra o texto de hoje será a carta de um leitor, coisa que tínhamos dito que não voltaríamos a fazer.

 

 

 

A QUERIDA GLOBALIZAÇÃO

 

Exmo Sr.

Tem-se assistido, no seu sítio a uma campanha (movida não sei por que interesses) contra a globalização. Alguém chamou-lhe jocosamente «globalização da pobreza», em virtude do deslocamento de actividades produtivas para países onde é possível maximizar os lucros, pagar salários de miséria e trabalhar em condições sub-humanas: horários de trabalho longos (por exemplo 14 horas), ausência de férias, etc. É o grau zero dos direitos. Em suma, condições do séc. XIX, uma involução histórica, um regresso ao passado, como já foi referido. Isto é uma manifestação do «homo economicus racional» e tem a caução «científica» da teoria económica dominante. Li que lá por um canibal usar garfo e faca não deixa de o ser.

A mão-de-obra barata (eufemismo de salários de miséria) não leva ao desenvolvimento, pois perpetua o círculo vicioso da pobreza, dizem alguns. As pessoas estão reduzidas à condição de burros de carga. O dinheiro não tem cheiro, como se disse, é amoral. Isto é mais um exemplo de uma economia predadora, sem escrúpulos. O economista Adam Smith dizia que os agentes económicos ao actuarem no interesse próprio contribuem, sem querer, para o bem-estar dos outros. Está-se mesmo a ver.

Os salários de pobreza, de saldo são uma vantagem comparativa que gera uma afectação de recursos: atraem o investimento estrangeiro. São um factor de produção competitivo, isto segundo a teoria económica dominante. Esta também diz que o emprego depende do crescimento, este depende da competitividade, esta dos salários baixos, etc., da flexibilidade laboral, em suma. Alguém disse que a divisão do trabalho entre nações é que uns especializam-se a ganhar e outros a perder. O pobre México é um bom exemplo disto, desde que entrou para uma zona de comércio livre com o EUA e Canadá.

A divisão internacional do trabalho preconizado pelo economista Ricardo é uma falácia. Na verdade, grosso modo, uns países especializam-se na produção, com salários de miséria, de baixo valor acrescentado. Há quem fale em nova ordem económica internacional. Para quê?

Por aqui se vê que a economia e os direitos humanos não tem que ver um com o outro. São duas coisas diferentes, como a água e o gelo. Os direitos humanos, para os fundamentalistas do mercado, não são um factor de crescimento e de competitividade, que também são atrapalhados pelas preocupações com o ambiente. Para Gary Becker, Prémio Nobel da Economia, "O direito ao trabalho e a protecção do ambiente tornaram-se excessivos na maior parte dos países desenvolvidos". A propósito, a atribuição dos prémios Nobel de Economia rege-se por critérios rigorosamente científicos?

O governo dos Estados Unidos não aderiu, egoísticamente, e de uma forma chauvinista, ao Protocolo de Quioto sobre a emissão de gases com efeito estufa, alegando que isso prejudicaria a indústria americana. Só o dumping social, ambiental e fiscal levam à prosperidade económica, ou à eficiência, seja lá o que isso for. Assim pretende-se fazer aceitar o inaceitável: explorar e manter as pessoas na servidão da pobreza e lucrar com a degradação ambiental. Pressinto que não se pode resolver a questão ambiental sem a social. Por que será?

Muitas multinacionais vão aos países pobres fabricar (pelo preço da chuva) os seus produtos (brinquedos, artigos desportivos, vestuário, etc.), que são depois vendidos no mundo desenvolvido com bons lucros. Por exemplo, o preço de venda ao público pode ser dez vezes maior do que o custo de produção. Muitos dos produtos de consumo dos paises desenvolvidos são feitos à custa de salários de pobreza (competitivos).

Em cada dez dólares de café arábica de alta qualidade, da Tanzânia, vendido num café dos Estados Unidos, o pequeno produtor recebe menos de 1 cêntimo (PNUD, 2005). Depois admiram-se que o valor das exportações dos países subdesenvolvidos para os desenvolvidos é baixo (cerca de 5%). Faz sentido o conceito de comércio justo ou de lucro razoável? A desigualdade nos termos de troca entre os países ricos e pobres é uma invenção?

A economia mata. A queda abrupta dos preços das matérias-primas no mercado mundial pode originar a morte pela fome de milhares de seres humanos. É o caso do café, após a desregulamentação do sector. As leis e forças do mercado são muitas vezes a lei do mais forte. Não é difícil de ver.

Estes exemplos mostram que as baixas remunerações dos assalariados e os baixos ganhos dos produtores não são uma necessidade económica de rentabilização, mas uma forma de os explorar o mais possível e assim maximizar os lucros. É por isso que os direitos humanos são condição do desenvolvimento, terão que ser a instância reguladora da economia.

Os economistas Jeffrey Sachs e Andreve Warner comprovaram uma associação entre a abertura económica e o crescimento económico. As economias abertas cresceram a uma taxa média de 4,5% ao ano entre 1970-1989, as fechadas 0,9%.

Um estudo do Banco Mundial afirma que o terço dos países mais abertos à globalização viram o seu rendimento por pessoa aumentar 67% entre 1980 e 1997. Os restantes dois terços viram o seu rendimento crescer apenas 9,5% durante esse período. [C. F. World Bank (2002) Cap.1, Pág.34-38]

Sei que desconfia um pouco das estatísticas do Banco Mundial tanto mais que os dados acima referidos não mostram, por exemplo, como foi feita distribuição da tarte, ou seja, se esta foi comida só por alguns, se houve realmente valor acrescentado a nível global, ou simples transferência de trabalho de umas zonas do Planeta para outras. Tem de se ter atenção ao aspecto qualitativo do crescimento económico. Não se pode ser cego, surdo e mudo a isto. Há que fazer uma análise mais fina da realidade.

Mas mesmo supondo que os números acima referidos são rigorosos, poderá rebatê-los dando o exemplo dos «milagres» económicos brasileiro e sul-africano, há umas décadas. Como se sabe foi um crescimento envenenado, não sustentado socialmente. Os bairros de lata no Brasil e os seus cerca de 35 mil mortos por armas de fogo ao ano (verdadeira guerra cívil não declarada) aí estão para o provar. O tiro saiu pela culatra. É o estilhaçar da coesão social. Países como a Colômbia, Venezuela, África do Sul, etc. têm também altos níveis de violência. As armas são a principal causa de morte entre adolescentes nos EUA. O medo do crime pode envenenar a vida das pessoas. No entanto há quem não aprenda com a experiência.

 O Brasil é uma das potências industriais do Globo e no entanto não é um país desenvolvido. Pode haver crescimento económico sem desenvolvimento, sem diminuição do emprego, etc.

Arrisco a dizer 3 razões que levaram ao fracasso do «milagre económico» brasileiro: ausência de democracia e distribuição da riqueza e existência da dívida externa.

É difícil pregar moral a quem tem a barriga vazia. Alguém afirmou que sem justiça não há paz, mas violência. Dito de outro modo, quem anda no trapézio arrisca-se a cair. Delfim Neto, o principal ministro da área económica da ditadura militar brasileira de então, acentuava que a distribuição não era importante. Há quem defenda para a Europa, se não o modelo brasileiro, pelo menos o americano, onde o fosso entre os que têm e os que não têm é da altura do Everest. Além disso os EUA possuem um bónus extra: lá o desemprego tende a ser de curta duração, enquanto na Europa cerca de 50% é de longa duração, tudo isto, dizem, devido à rigidez laboral e altas prestações sociais. Resumindo, a escolha, para alguns, só se pode fazer entre o preto e o branco, não sei se me faço entender. Pode-se ser pobre devido ao desemprego ou aos salários baixos. Basta escolher.

O Japão tem a riqueza relativamente distribuida, poucos pobres e baixa criminalidade. A distribuição da riqueza não deriva exclusivamente de determinismos económicos. É uma questão cultural e política.

A Europa só faz sentido se for a dos direitos humanos, a do direito à qualidade de vida.

A distribuição da riqueza é uma variável do desenvolvimento, apesar de a teoria económica dominante não lhe ligar peva. A propósito, qualquer teoria não tem de ser validada pela realidade?

Samuelson e Nordhaus dizem que o leite pode ir parar ao gato do rico em vez do filho do pobre. Uma grande desigualdade social constitui um impedimento ao desenvolvimento. É o caso dos países da América Latina.

Espero que o leitor um dia não tenha de mandar os seus filhos à escola protegidos por guarda-costas e ir para o emprego por um caminho diferente todos os dias, para não ser assaltado ou sequestrado, como acontece em alguns países. A prática de ostentação da riqueza é contraproducente em todos os aspectos, se é que não estou a ser moralista..

No entanto cada um acredita no que quer e aceitar os dados do Banco Mundial, sem questionar os seus aspectos qualitativos, tem a vantagem de preservar a nossa boa consciência, o que, diga-se de passagem, não é coisa de somenos, como aliás este sítio tem vindo a sublinhar.

Não sei se o meu texto também está um pouco confuso.

João Picareto – Travassos

 

PERGUNTA DA SEMANA

A caridade e a pretensa igualdade de oportunidades são um bom substituto da justiça social?

 

NOTÍCIA FALSA

 

Conforme se esperava recebemos a simpática visita do líder de um dos partidos da oposição, do qual não dizemos o nome, para não fazer publicidade gratuita.

Numa reunião informal debatemos a actual situação do País, a qual foi intervalada por um breve coffee-break.

No final, e de uma forma emocionada, o nosso líder político disse que o capitalismo selvagem jamais vencerá a social-democracia e que não deixará que esta seja esvaziada de conteúdo (voto piedoso em virtude da actual correlação de forças entre o poder político e o económico). Também não abrirá mão do facto de o direito à qualidade de vida ser um direito humano e base do contrato e coesão sociais. "Se se aceitar a pobreza, que contrato social é possível?"

Acrescentou que tinha um sonho: quando deixar este mundo queria que em Portugal todos já tivessem qualidade de vida. As nossas almas sensíveis foram incapazes de conter uma lágrima rebelde no canto do olho. Foi-nos pedido um cheque em branco. Demos-lhe logo ali um, assinado por toda a Redacção.

 

CARTAS DO LEITOR

 

Exmo Sr.

Num deste dias dei de caras com o Paulo Nunes, aquele actor que faz o papel de vilão na telenovela das nove.

Apesar de estar perfeitamente consciente de que estava em frente do actor e não da personagem, não resisti e dei-lhe um enxerto de porrada para servir de lição. Coitado do homem, ficou cheio de nódoas negras.

Sobre isto queria fazer duas perguntas:

Fiz mal?

Tal como acontece com a ideologia do mercado, é difícil distinguir a ficção da realidade?

Carlos Santos - Lisboa

Exmo Sr.

Apesar de na Holanda a interrupção voluntária da gravidez estar legalizada, este país apresenta uma das taxas mais baixas de aborto.

Segundo uns, isto mostra que a ilegalização não é a solução adequada, pois vai criar um problema suplementar, de saúde pública, uma vez que são feitos sem assistência médica, o que funciona como merecido castigo, segundo outros.

Contudo eu acho que os princípios devem prevalecer, independentemente da sua eficácia negativa. Por isso sou contra a legalização da interrupção voluntária da gravidez. Também sou contra a eutanásia, a uma morte sem sofrimento. Acho que uma pessoa deve morrer naturalmente e em fogo lento, se for caso disso (75% dos casos, creio).

Josefina Pascoal - abortadeira

 

FRASE DA SEMANA

"Os trabalhadores, como o nome indica, servem para trabalhar".

Anónimo

 

 

INQUÉRITO

 

Qual o tipo de sociedade que o leitor quer para Portugal?

  • Uma sociedade assim-assim
  • Uma sociedade assim-assado
  • Qualquer serve
  • Vá bugiar

Escrever uma cruzinha (a tinta preta) no quadrado respectivo.

 

PERGUNTA

 

Os estudantes de Economia saem formados em...

ideologia do mercado?



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