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CRÓNICA 10

 

Entusiasmado com a sua crónica, o meu vizinho do 5º Esq. escreveu logo outra, que nós, não tendo coragem para dizer não, publicamos.

 

EM DEFESA DO CAPITALISMO SELVAGEM - o case study português

  Há quem diga que a economia deve servir e não servir-se do ser humano. Este é um ponto de vista errado. I´ve a dream (tenho um sonho): o capitalismo venceu o comunismo e o capitalismo selvagem há-de vencer o capitalismo.

Há crescimento económico e, consequentemente aumento do PIB, quando existe produção de riqueza (conceito ambíguo). Se há produção de riqueza a economia é eficiente. A teoria diz que as forças do mercado (através do incentivo do lucro) orientam, como uma mão invisível, a economia para a eficiência.

Existem muitas formas de tramar o parceiro.

Como se sabe, as bebidas alcoólicas são um consumo de risco, pois podem levar à toxicodependência, uma tragédia.

Se os hábitos antigos e a publicidade às bebidas alcoólicas (sobretudo aquela dirigida aos jovens) não fizessem o seu trabalho, Portugal não teria o milhão de alcoólicos e bebedores excessivos que sustentam a actual produção de bebidas. Isto significa a manutenção de bastantes postos de trabalho e a facturação de muitos, mas muitos milhões de euros. Li que a Europa tem 3 alcoólicos por 100 habitantes, Portugal, 8. Com esforço, quem sabe, podemos elevar esse número para 12. Em Portugal o consumo de álcool está a aumentar entre os jovens. Troca-se a vida das pessoas por euros. O dinheiro não tem cheiro.

Há quem diga que este tipo de economia é como comer o próprio pé ou dar um tiro no dito (má economia que gera uma errada afectação de recursos), mas não estou de acordo. É fartar vilanagem. Quem disse que a economia não deve violentar as pessoas?

O ser humano não tem de ser a medida de todas as coisas. É o Admirável Mundo Novo. Há quem defenda que os problemas não existem se não se falar neles. Como alguém me disse: “É a economia, estúpido!”. Não é verdade que os interesses turvam a visão das coisas. Uma prima dum amigo da minha mulher-a-dias sustenta que o Diabo é o próprio homem.

Quando os interesses particulares pisam o interesse geral assumem um carácter predador, dizem. Ou seja, existe um produtivismo de soma negativa. Há quem defenda, não inocentemente, o seguinte modelo económico: trabalhar mais, para produzir mais, para lucrar mais. Qual o valor (utilidade) disto? dirão alguns.

A ideologia do crescimento pelo crescimento, do produtivismo obsessivo tem consequências a nível ambiental e dos recursos naturais. Além disso é um travão à redução da jornada de trabalho. Distorce o mercado de trabalho, cria desemprego estrutural, por não permitir partilha do trabalho. Historicamente sempre houve resistência à diminuição do horário laboral, a pretexto de razões económicas, evidentemente.

Nos começos do séc XX, o Supremo Tribunal dos EUA anulou disposições legais que melhoravam as condições de trabalho para as mulheres e crianças e outra legislação sobre horários de trabalho e salários (Samuelson e Nordhaus). Isto é um exemplo em que a justiça formal vence a real, em que há uma subversão desta última.

 

Em nome da pretensa lei económica da maximização do lucro as pessoas devem ser carne para canhão, exploradas até ao tutano, não só ao nível da produção, como do consumo. Isto não é uma perversão económica. Respeito pela pessoa? Isso é alguma piada? O Eixo do Mal tem muitas caras e por vezes onde menos se espera: nos Estados Unidos dezenas de milhares de crianças foram abusadas sexualmente por padres católicos. Impressionante.

A maximização do lucro leva a que parte da população (classe média incluida) não tenha acesso a serviços médicos, jurídicos, etc.

Como se costuma dizer em economês, todas lucram com o lucro ou tudo o que é lucro é ouro. Isso não quer dizer que estejamos a confundir economia com negócios.

A maximização do lucro (e não os direitos humanos), são o critério do Bem e do Mal. Com isto, a ética dos negócios fica esvaziada de conteúdo, mas tal pouco importa. A princípio a indústria farmacêutica recusou-se a vender aos países subdesenvolvidos medicamentos para a sida a preços acessíveis: que morresse quem não tinha dinheiro para os pagar. Não há almoços grátis, como se costuma dizer nos meios económicos. A questão dos medicamentos não deve ser deixada exclusivamente ao privado, dizem.

A teoria económica diz que a produção visa satisfazer as necessidades do consumidor que é rei. Mas se for preciso leva-se o cidadão a consumir. É a subversão da Teoria do Valor. O consumidor deve estar ao serviço da produção (que não é neutra) e não o contrário, nunca é demais repetir. Vamos dar outro exemplo: o do lixo alimentar propriamente dito. Há que comer e calar.

Os maus hábitos alimentares, que são essencialmente veiculados pela publicidade, têm vindo a ganhar terreno. Todos os métodos são bons.

Nos países desenvolvidos parte significativa dos adultos e até mesmo das crianças têm excesso de peso. A diabetes tipo 2, doença típica dos adultos, começa já a afectar os jovens. Deste modo se vê que há problemas de saúde que são, antes demais, de ordem política. Aqui manda a política do deixa andar. É melhor não fazer ondas, pois, como se sabe, quanto maior a entropia mais difícil ou quase impossível se torna revertê-la. Portugal tem 500 mil diabéticos, uma enormidade. Se nada for feito tal número aumentará e muito.

Aproveitando a embalagem diga-se que pelo menos 1 em cada 3 europeus terá cancro, um desastre. Os factores ambientais são um desencadeador de muitos casos desta doença. Isto é igualmente uma questão política. As pessoas têm de reagir. Não podem deixar matar-se como cordeiros.

Como é mais fácil alienar as crianças e, é de pequenino que se torce o pepino, a publicidade tem especial carinho pela miudagem. Assim esta é levada a enfardar a chamada comida de plástico (rica em gorduras saturadas, bebidas açucaradas, etc.) É a economia sem escrúpulos, predadora. Há que dar rédea solta às forças económicas. Nada de instâncias reguladoras. A raposa deve tomar conta do galinheiro. Como alguém dizia, não há poder sem abuso do mesmo. Os hábitos são como as ideias, depois de adquiridos são difíceis de mudar. É lenta a evolução das mentalidades. Proteger as crianças da publicidade? Mas pensam que estamos na Suécia, ou quê?

 

Desde cedo a saúde dos cidadãos começa a ser minada. Não é por acaso que as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte nos países ditos civilizados. Pode-se perguntar quanto vale a vida de um ser humano. A resposta é: nada.

Apesar de estar em causa a vida das pessoas, isto não é uma questão de segurança nacional. Ao lado desta hecatombe o bárbaro ataque terrorista de 11 de Setembro nos EUA, em 2001, é uma brincadeira. Estamos em presença de um genocídio económico. Mas como diz a Teoria da Relatividade, a relevância que damos às coisas depende de factores culturais. No Alcorão lê-se que "Aquele que matou um homem que não tenha cometido um crime, nem um pecado grave à face da Terra matou a humanidade inteira."

 

Há quem defenda que o alcoolismo e o lixo alimentar são factores importantes de ineficiência social.

Não me venham falar nos custos económicos e humanos da toxicodependência do álcool e do lixo alimentar e que tal é um impedimento ao desenvolvimento e à qualidade de vida. Isso são externalidades negativas das firmas que não são para aqui chamadas. O que interessa é a eficiência a nível da empresa, como se o todo fosse a soma das partes. Sim à microeconomia, não à macroeconomia. O que é bom para o General Motors e para Wall Street é bom para o país. Recordo que a liberalização de capitais (do interesse do sistema financeiro) esteve na base da catastrófica crise de 1997 do Sudeste Asiático. Em economia há interesses divergentes. As decisões económicas são por isso uma questão política. Oxalá não venha um crash económico e bolsista global, tal a integração económica mundial e a não sustentabilidade ambiental de hoje. Chama-se a isto risco sistémico. É o efeito dominó.

Essa falácia de que pessoas saudáveis produzem mais do que as doentes e que não existe Serviço Nacional de Saúde que resista se não houver uma política de prevenção e educação para a saúde não deve ser levada a sério. Uma política de prevenção e educação para a saúde permite libertar recursos, é mais eficiente, dizem.

Em tudo há os que estão a favor e os que estão contra. Que não haja coragem política para enfrentar os problemas.

Que ninguém ouse proibir a publicidade às bebidas alcoólicas e ao lixo alimentar. Isso equivaleria a uma cessação de lucros. Ai daquele que pense armar-se em herói. Quanto muito condescende-se na proibição à publicidade ao tabaco. As empresas não são instituições de solidariedade social. Contudo, não precisam de ser aves de rapina, defendem alguns. Papel social das empresas? Com a cultura do lucro máximo e a qualquer preço isso passou à História.

Não se pode estar contra a economia real. O Estado deve colocar-se no seu papel de mero árbitro e não intervir no mercado (sede de todas as virtualidades), pois tende a ser como um elefante numa loja de porcelanas, só atrapalha a mecânica económica: constitui parte do problema e não da solução. Não é verdade que não há desenvolvimento com capitalismo selvagem, e isto em termos meramente económicos. É possível a quadratura do círculo.

Não compete ao Estado dizer se os consumidores não devem engolir porcarias. Deve demitir-se das suas funções. Não pode intervir na indústria alimentar no sentido de banir progressivamente o consumo de bens que no longo prazo são uma bomba relógio em termos de saúde pública. A iminência da regressão da esperança de vida aí está para o provar. Há reformas, estruturais ou não, que nada interessam. Não sei se me faço entender. Sou pelo status quo e participarei em qualquer estratégia de boicote a políticas que o ponham em causa. Se Deus quiser, tudo há-de ficar na mesma e a vida dos portugueses há-de continuar a ser difícil.

Quero o desenvolvimento (seja lá o que isso for) sem verdadeiras reformas.

A liberdade económica (que representa uma das expressões da liberdade) é um bem precioso que não se pode coarctar. Os mercados devem ser «livres». Estas são as regras do jogo. Sim ao laissez-faire. Haja menos Estado. É preciso que este tenha as mãos e os pés atados, há que pô-lo no seu lugar. Com a queda do comunismo a economia de mercado não tem de provar o que quer que seja.

É preciso dizer “Não!” àqueles que preconizam substituir um paradigma económico em que a produção é um fim em si mesmo por um paradigma económico em que a produção está ao serviço do direito à qualidade de vida, dos direitos humanos. Não se pode pedir o imposível. Tal é um lirismo e abstracto demais para a minha cabeça. Recuso a complexidade. Sou pela demissão intelectual. É legítimo uma inversão das prioridades. Não existe 3ª via entre o comunismo e o capitalismo selvagem. Não há meio-termo, nem no meio está a virtude. Como dizia o cantor Leo Ferré: “Para vender a infelicidade basta encontrar a fórmula certa.”

E por aqui me fico nas minhas considerações light, pois muitos leitores já devem estar a bocejar. Espero não ter sido outra vez confuso. Se há coisa que detesto são as quebras de lógica, a incoerência intelectual. Peço desculpa pelo meu discurso um pouco inflamado. É a emoção. Não me consigo controlar.

Viva a ignorância e a inércia mental! Viva a sociedade de consumo!

O vizinho do 5º.Esq.

 

CARTAS DO LEITOR

 

 

Exmo Sr.

Tenho de confessar que a minha mulher é mais inteligente e culta do que eu.

Ela passa o tempo a ouvir canções cujas letras não percebo. No outro dia atrevi-me a comprar um CD de um cantor de que gosto. Quando ela soube disso puseram-se-lhe os cabelos em pé e chamou-me pimba.

Apesar de ser contra o facto de os telejornais passarem 90% do tempo a falar de futebol, de vez em quando gosto de ver um desafio. Quando isso acontece a minha mulher atira-me sempre à cara que o futebol é para indivíduos como eu, um básico. Uma pessoa não pode ser feliz à sua maneira? Por que o mundo é cruel?

Armando Alves - Vilarinho das Furnas

Exmo Sr.

Tenho uma coisa que me anda a fazer cismar desde há algum tempo. Por que carga d´água o mês de Maio vem antes de Junho e não o contrário. O mesmo digo por exemplo do Janeiro e do Março. Há uma explicação para isto?

A minha mulher diz que só me preocupo com o sexo dos anjos, quando o Mundo tem tantas coisas para resolver. Ela lá terá as suas razões?

Arnaldo Faria - Águeda

 

INQUÉRITO

 

 

Acha que o direito à qualidade de vida é um direito humano?

  • Eu cá não acho nada
  • Quem acha sempre alcança
  • Acha é a 3ª pessoa do presente do indicativo
  •  

    Pôr a habitual cruzinha, a tinta preta, nos quadrados respectivos, apesar de termos o pressentimento que não vamos chegar a grandes conclusões.

     

    NOTÍCIA FALSA

     

    Apraz-nos registar que nos foi comunicado o desejo do presidente de um dos partidos da oposição em nos fazer uma visita, assim que a sua agenda política sobrecarregada o permitir.

    Ficamos a aguardar.

     

    APÊNDICE

     

     

    Exmo Sr.

    O direito à qualidade de vida é um direito humano. Este deve ser o princípio fundador das sociedades. Tal não é uma questão teórica, mas prática.

    Não é o ser humano que deve estar ao serviço da economia, mas sim esta que deve satisfazer o direito à qualidade de vida. O paradigma económico terá de ser mudado. É preciso pôr fim à porcaria da globalização em curso (GEC), que não é mais do que a globalização dos salários de pobreza e da injustiça. O Mundo tem de ser para todos. É difícil entender isto?

    Deus

    Apesar de sermos ateus agradecemos o incentivo



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