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Como as crónicas estão a ficar maiores do que o esperado, aconselhamos os leitores a ler metade numa semana e a outra parte na seguinte. Assim o frete será menor.

Como nos deu a preguiça, resolvemos promover a carta de um leitor a crónica. Prometemos que tal não voltará a acontecer.

 

CRÓNICA 8

 

 

Economia de Mercado: A Melhor Invenção Depois da Roda

 

 

Exmo Sr.

Como sabe o número de divórcios está a aumentar, pelas mais diversas razões. Venho aqui relatar o meu caso.

A minha mulher é uma fundamentalista da economia de mercado, uma monetarista para ser mais preciso, adepta do Prémio Nobel da Economia Milton Friedman, o guru dos boys de Chicago. Sem querer cortar na casaca, direi que ela sofre de miopia teórica e rigidez mental. Tem um pensamento dogmático.

Na minha modesta opinião "O Rei vai nu". O termo «economia de mercado» não é um conceito objectivo mas um ideologismo, uma falácia e ratoeira intelectual, pois confunde mercado com economia. Reduz esta àquele. Veicula uma determinada visão da economia, o que não é inocente. Não é por acaso que este termo substitui a palavra capitalismo. Nem tudo pode ser mercantilizado, como sejam os cuidados à 3ª idade. Também o pagamento da saúde pelos utilizadores levaria a que muitos não tivessem acesso a esses bens.

O lucro nem sempre é sinónimo de eficiência: o sistema de saúde nos EUA é ineficiente na medida em que custa 14% do PIB (o dobro da Europa) e deixa dezenas de milhões de pessoas de fora. O lucro pode ser anti-económico: o pagamento da educação pelos beneficiários, ao levar ao abandono escolar, compromete o desenvolvimento.

No passado, escolas de pensamento económicas, científicas, políticas, etc. vingaram e pereceram: fisiocratismo, geocentrismo, racionalismo de Descartes, etc. Devido ao condicionalismo social, muitas vingaram apesar de baseadas em pressupostos falsos: é o caso do criacionismo.

O socialismo cientifico procurava a legitimidade na ciência. Era a mentira erigida em verdade. Também a economia de mercado procura a sua legitimação em supostas leis económicas, como sendo a "única forma racional de economia e universalmente válida". Estes 2 casos são exemplos da função de ocultação da realidade que a linguagem pode ter.

O condicionamento social é uma força poderosa na validação do saber, ou seja, muitas vezes a validação é exterior e não intrínseca. Galileu penou por se opor ao saber dominante, que se baseava em factos não verdadeiros.

A legitimação da teoria económica normativa dominante (ideologia de mercado) é feita por condicionamento social e não pela sua aparente cientificidade: equilíbrio do mercado, racionalidade dos agentes económicos, eficiência económica, etc. Desafio qualquer um a provar o contrário, que estamos em presença de informação verdadeira.

 

O mercado não é auto-regulado (em equilíbrio), mas acéfalo (visa o lucro imediato), necessita de inputs. Sem regras tende a assumir um carácter predador e mesmo autofágico, leva à entropia social. Falando caro, a realidade económica não é homeostática. Daí o esgotamento dos recursos pesqueiros, a contaminação ambiental, a necessidade de legislação laboral: fixação de horários e condições de trabalho, salário mínimo, etc. Sem isto teríamos a selva social. «A mão invisível» que harmoniza o jogo económico e social, defendida pelo economista Adam Smith, não existe, é uma fábula, uma quimera (Stiglitz). O mercado «livre», sem regras, não leva a uma distribuição optimizada dos recursos e da riqueza. Conduz à polarização (e desintegração) social, a nível nacional e internacional. O fosso entre ricos e pobres aumenta.

A ideologia do mercado erigida em política não só não leva ao desenvolvimento como conduz ao recuo deste, contrariamente à ideia prevalecente. As políticas sociais são necessárias ao desenvolvimento económico.

 

As sociedades tal como o ambiente, são equilibrios frágeis. Há que ter cuidado. O caos pode estar ao virar da esquina.

A entropia mede o grau de desorganização de um sistema. Disto decorre a necessidade de reformas de modo a reduzir a ineficiência. Quanto maior a eficiência mais margem de manobra. Portugal para uma dada quantidade do PIB necessita do dobro da energia relativamente a outros países europeus, o que se traduz numa factura pesada.

Existe decadência quando a entropia gerada é maior do que a anulada. Tal levou à queda da ex-União Soviética. Actualmente países africanos estão a ser devastados pela sida. Uma guerra civíl é um exemplo de máxima entropia: a Serra Leoa foi devastada pelas atrocidades da FUR. Esta usava trabalho escravo na extracção de diamantes.

Quanto maior a entropia (corrupção, violência, pobreza, poluição...) mais difícil se torna revertê-la e maiores os custos. De nada vale pôr os problemas debaixo do tapete ou adiá-los. Fica mais barato prevenir do que remediar.

Não tentar anular ou controlar a entropia pode significar andar a brincar com o fogo. O laxismo orçamental de países da América Latina, na 2ª metade do Séc. XX, levou à hiperinflação. O mesmo se passa relativamente aos gases com efeito estufa: as consequências podem ser catastróficas. A irresponsabilidade é possível. Oxalá não se entre num processo fora de controlo e seja tarde demais. Não se deve brincar com o futuro. Só para assustar: o Protocolo de Quioto é insuficiente para resolver o problema do aquecimento global. A humanidade está a gerar mais entropia, não só a nível ambiental como social, do que aquela que anula.

 

Há quem pareça não conhecer o método científico.

Os monetaristas, com as suas ideias mirabolantes, levam ao absurdo a ideologia do mercado. Para eles é preciso limpar a economia das «imperfeições» que lhe foram introduzidas, como o subsídio de desemprego e outras regalias da Segurança Social (deve ser abolida), pois são um incentivo à preguiça. O Estado não deve intervir na actividade económica, pois o mercado, só por si, conduz à eficiência. É a vulgata e propaganda liberal. Como se o desenvolvimento de países como a Coreia do Sul, Taiwan, Estados Unidos e Japão tivesse sido levado a cabo sem o Estado. Questões complexas não têm soluções simplistas. Para os fundamentalistas não existe política. São quase a favor do «stateless global governance», de um mundo governado apenas pela economia, como se esta fosse neutra.

Infelizmente, hoje em dia, o condicionamento económico externo e não só de um país deixa a este pouca margem de manobra. O poder real tende a ser subterrâneo e a democracia, formal.

O poder normativo dos estados diminui. Há quem queira congelar a História, na economia de mercado.

 

O poder político ao liberalizar a economia: liberdade de circulação de mercadorias e capitais, etc. libertou forças que impelem agora o poder político a desmantelar o Estado Social, que se esvazia de conteúdo. O exemplar Serviço Nacional de Saúde inglês virou uma sombra do que foi. Os bens e serviços públicos, se puderem ser fonte de lucro, tendem a ser mercantilizados e privatizados. O feitiço voltou-se contra o feiticeiro, o económico, contra o político. Florescem os salários de pobreza nos países desenvolvidos, a pretexto da realização de trabalho pouco qualificado. Como se isso pudesse legitimar que pessoas, que realizam tarefas necessárias à sociedade, vivam sem dignidade. No entanto, já há licenciados a ganhar tuta e meia. Vamos ver aonde isto vai parar.

Sob a chantagem da deslocalização de capitais e unidades produtivas os governos não podem ter grandes veleidades quanto a políticas sociais, ambientais ou fiscais. Estão reféns. Não existe Estado Social sem receitas fiscais. Chega-se ao ridículo de falar em competitividade fiscal: o ideal seria fazer do Mundo um offshore global. Desenha-se um recuo civilizacional, o que já não seria a primeira vez na História. Na Alemanha, a chantagem da deslocalização foi posta em prática com êxito por grandes grupos económicos que conseguiram um aumento do horário laboral, que ficou acima do que estava na lei. Manda quem pode.

Para os monetaristas não há desemprego e, se existe é porque os salários estão altos, distorcidos. Basta baixá-los até ao salário de equilibrio de mercado (visão mecanicista da economia que deriva de Newton e que persiste em perdurar). Só que os sindicatos e o Estado (salário mínimo) não deixam. Assim os sindicatos são uma fonte de concorrência imperfeita. Isto constitui um exemplo paradigmático em que não é a teoria que está errada, mas a realidade. É caso para perguntar com que óculos teóricos eles vêem o mundo, ou se estão a gozar com a inteligência das pessoas, ou têm falta de capacidade analítica. Este é um exemplo de extrema cegueira intelectual. Haja bom senso. Quando o pensamento abstracto corta com a realidade passa à categoria de ficção. O poeta Paul Valéry dizia que os factos não penetram no mundo onde habitam as crenças. É caso para perguntar se a verdade interessa para alguma coisa. Os chamados economistas novos clássicos defendem que a maior parte do desemprego é voluntário. Se uma pessoa continua no desemprego é porque não aceita trabalhar por um salário mais baixo, coisa que encontraria facilmente, quanto mais não seja vender castanhas na esquina da rua.

O Prémio Nobel da Economia Gunnar Myrdral (1974) afirmava que a teoria económica vigente é em grande medida a racionalização dos interesses que predominam nos países industrializados. Tal a ser verdade é grave, sob o ponto de vista intelectual: trata-se de uma fraude.

Devido a tudo isto, as discussões (económicas) com a minha mulher são frequentes.

Tentámos um terapeuta conjugal, mas como ele não percebia de economia, não resultou.

A coisa está preta?

Carlos Teodoro - Vilar Formoso

CARTAS DO LEITOR

 

Exmo Sr.

É preciso ter pachorra. Mas quem se julga o Sr. Carlos Teodoro que é? Um iluminado? Como se atreve a dizer que o termo «economia de mercado» não é um conceito científico? Já agora, os termos «economia livre» e «comércio livre» também são ideologismos, falácias, pecados originais da teoria económica actualmente dominante. Se pensa que pode abalar os alicerces das minhas convicções está bem enganado.

Não me venham dizer que da discussão nasce a luz e que é preciso manter abertura de espírito a pontos de vistas alternativos, que não são mais do que disparates de um qualquer palerma.

Luz Santos (Carnaxide)

 

Exmos Srs.

O vosso sítio tem erros de português. Isto para não falar da vossa indigência mental. Onde tiraram a 1ªclasse? Ao menos comprem um prontuário.

Só mais uma coisa. Numa das vossas futuras crónicas diz-se que a lei da maximização do lucro é uma balela. É uma ova. Essa lei tem uma base objectiva. O lucro máximo ocorre quando a produção se encontra ao nível em que a receita marginal da empresa é igual ao seu custo marginal. Perceberam? Não? É porque sois uma cambada de ignorantes.

Santos Torres (Moita)

 

Direito de Resposta:

Como o leitor não tem argumentos para as nossas parvoíces, inverdades e lugares-comuns vale-se de aspectos laterais e secundários para tentar descredibilizar este sítio, num sinal claro de má-fé e sabe-se lá com que intuitos obscuros.

 

Um leitor desesperado escreveu-nos a seguinte carta:

Exmo Sr.

A minha mulher é doutorada em Língua e Literatura Portuguesa.

Cada vez que abro a boca ela trata de corrigir-me no imediato. Isto acontece várias vezes por dia, desde há anos.

Se eu afirmo “Tenho a certeza que é isto”, ela diz que o correcto é: “Tenho a certeza de que é isto”. Há verbos e expressões verbais que obrigam ao uso da preposição «de». Obrigam porquê? pergunto eu.

Se eu digo “Trata-se do João estudar”, ela contrapõe que o certo é: “Trata-se de o João estudar”. Não se contrai a preposição «de» com o artigo ou pronome antes de uma oração infinitiva.

Podia dar múltiplos exemplos.

Na minha modesta opinião de electricista, as línguas evoluem contra a norma, apesar dos legisladores, tendo em vista a eficácia comunicativa, pondo de lado aquilo que é um preciosismo inútil. A Língua não tem que (de) ser um exercício de erudição. Quando lhe digo isto, responde-me que enquanto o legislador não mudar as regras tenho que (de) me submeter a elas.

Para mim, a língua portuguesa é absurdamente complicada, o que dificulta a comunicação e constitui, quiça, causa de insucesso escolar.

Esta situação origina uma contínua tensão nervosa. Porque (por que) a vida há-de ser um vale de lágrimas?

Santos Pinto (Anadia)

 

Exmo Sr.

Que é isso de duvidarem do criacionismo, de que o ser humano e os outros seres vivos foram criados de uma vez só e não de basicamente terem-se diversificado a partir de um tronco comum? Não me venha dizer que a genética demonstra isso. Já agora, essa da Teoria da Relatividade afirmar que 2+2 não são necessariamente igual a quatro só pode ser aldrabice.

Pergunta-me se eu sei o que é o obscurantismo? Não, não sei.

Júlio Castro (Amora).

 

 
   

DIÁLOGO UM POUCO FORTE

 

 

- Então João! Há tanto tempo... Que fazes?

- Dedico-me à prostituição!

- Quê!?

- Vendo a minha consciência por dinheiro.

 

 

AVISO À NAVEGAÇÃO

A teoria económica dominante nos meios universitários diz que um mercado eficiente pouco tem a ver com a justiça social e que existe um conflito entre esta e a eficiência. Até me cai o queixo quando ouço tal. É o senso comum «científico». Estamos em presença de uma violência simbólica e arbitrariedade intelectual? Que pode significar um desempenho económico fora das finalidades humanas?

Esta posição «científica» é tão radical, que nem os políticos se atrevem a defendê-la abertamente. Tal significa a aceitação e mesmo a necessidade da pobreza, a bem da eficiência económica. Chama-se a isto apodar de normal aquilo que é aberrante.

Uma enormidade do mesmo calibre: até um passado recente estava «cientificamente» estabelecido que os brancos eram mais inteligentes do que as outras raças e os homens mais espertos do que as mulheres. Sob a aparência de cientificidade escondem-se ideologismos e preconceitos.



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