Um sítio ao serviço da ignorância e das boas - consciências |
|
|
|
|
|
|
|
|
O COMPORTAMENTO ANIMAL - Parte IV |
|
|
Encontrei o Tavares que tem algo que o anda a preocupar. O Tavares foi em tempos meu sócio num investimento que fizemos na chamada economia informal. Para dizer a verdade íamos um pouco mais longe. Achávamo-nos acima da lei e do comum dos mortais. Não tínhamos qualquer consciência cívica. Éramos pelo sucesso individual e não pelo sucesso social. Para nós não havia distinção entre o certo e o errado. Há quem diga que a ideologia do «ser rico», este modo de pensar tem consequências: é um factor de desestruturação social, uma vez que tende a anular a ideia de agir para o benefício colectivo. Muita gente acha que defraudar o Estado, ou delapidar os dinheiros públicos não é roubar. Eu e o Tavares tivemos um negócio de receitas médicas falsas, cujos valores eram cobrados ao Estado através de algumas farmácias, que tiveram a gentileza de colaborar connosco, a troco, claro está, de uma percentagem, isto depois de termos feito uma incursão no negócio do roubo da cortiça.
Apesar de sermos indivíduos claramente amorais, sem ética, sem escrúpulos, tínhamos alguns princípios. As nossas actividades restringiam-se ao âmbito do chamado colarinho branco. Não enveredávamos pela violência. Éramos uns safados, mas civilizados. Não pertenciamos à linha dura. A propósito recordo-me de que antes do crash bolsista de 2000, conceituados analistas de Wall Street recomendavam a compra de acções que em privado comentavam não serem boas. Este deplorável comportamento da maior parte dos respeitáveis bancos comerciais e de investimento dos Estados Unidos culminou no pagamento de indemnizações de 1,4 mil milhões de dólares, exigidas pelo procurador-geral do Estado de Nova Iorque, Elliot Spitzer. Alguns ganharam fortunas à custa de uma imensa predação. Empresas como a World Com, Enron (energia) e Arthur Andersen (consultoria e auditoria) desapareceram, depois de fraudes contabilísticas e não só. No rescaldo de toda esta trafulhice, centenas de milhares de pessoas perderam o emprego, milhões viram as suas pensões de reforma desaparecer ou diminuir, em virtude da queda das acções. Rios de dinheiro arderam, pois foram investidos em sítios indevidos. Houve uma má economia, uma errada afectação de recursos, em virtude de uma informação enganosa, não eficiente. Não sei porquê, existe quem goste da economia de casino, que canibaliza a economia real. Como exemplo temos os fundos especulativos de curto prazo (há que ter mão neles). O sistema de câmbios fixos propiciou o ataque ao Sistema Monetário Europeu em 92/93, pelos fundos especulativos.
Salvo honrosas excepções o xadrez é para as classes baixas, para a arraia-miúda. Sem querer parecer marxista, direi que há uma justiça de classe. Como alguém disse, rouba um tostão é ladrão, rouba um milhão é barão. Daqui lanço um apelo, apesar de saber que onde há predadores há vítimas: Por favor, não acabem com as offshores, com os paraísos fiscais. Não fechem a torneira do oxigénio aos negócios escuros. Todos temos direito a ganhar o pão. Há quem diga que os offshores são o buraco negro da economia mundial. A economia legal e ilegal interpenetram-se. É por estas e por outras que existem países que têm dificuldade em desenvolver-se ou pura e simplesmente não se desenvolvem, porque nessas sociedades prevalece uma cultura de corrupção, um verdadeiro cancro. O caso mais exemplar disto foi o Zaire no tempo de Mobutu, o cleptocrata modelo: a élite governante roubava à grande e à francesa os cofres públicos. O povo que morresse de miséria. Pode-se também citar os casos de Somoza na Nicarágua, de Marcos nas Filipinas, de Arap-Moi, no Quénia, etc. Um regabofe, em muitos casos com a cumplicidade dos países desenvolvidos. A corrupção existente no círculo de poder à volta do presidente Boris Ieltsin foi um dos factores que conduziram a ex-União Soviética ao desastre, em contraste com países como a Polónia que fez uma transição normal para o capitalismo. Na Rússia a classe média desapareceu. Licenciados passaram a ter de lavar vidros, a fazer biscates para sobreviver.
Não é possível o desenvolvimento sem democracia e uma cultura de honestidade, para que se saiba. Não há omeletas sem ovos. Não é por acaso que os países mais desenvolvidos são democracias, pois o desenvolvimento necessita da liberdade de circulação de informação. Um ex-secretário de estado americano, a propósito do golpe de Pinochet no Chile, em 1973, disse que entre salvar a democracia e salvar a economia preferia esta última. O mal quando vem tem sempre uma desculpa. Alguns teóricos económicos sugerem que em certo estágio do desenvolvimento a eficiência económica pedirá uma ditadura. Não há totalitarismos virtuosos e a democracia é um valor em si mesmo. A corrupção (formal e informal) constitui um factor relevante de ineficiência social, dizem, pois gera desperdício e má afectação de recursos. Como afirmou o polícia Serpico, que denunciou a corrupção que grassava na polícia de Nova Iorque, é preciso que o desonesto tenha medo do honesto e não o contrário. Uma forma que o poder económico tem de subverter o processo democrático é pôr quadros seus na política, dar emprego a ex-governantes, financiar políticos ou campanhas partidárias, etc. Trata-se de uma corrupção informal. Um caso evidente disto são os Estados Unidos. Mas estava eu a dizer que o Tavares estava com um problema. Ele leu, numa revista científica, que a Via Láctea, a galáxia a que o nosso Sol pertence, está em rota de colisão com a Galáxia de Andrómeda. Elas aproximam-se à velocidade de várias dezenas de km por segundo. Assim dentro de milhares de milhões de anos «chocarão». Mas não bastando isto, ele também leu, na mesma revista, que o Sol quando esgotar o hidrogénio (entretanto transformado em hélio) vai aumentar de tamanho, dentro de milhares de milhões de anos, e de tal maneira, que a Terra irá ao ar, é o termo. O Sol será então uma gigante vermelha, que depois acabará em anã branca. Estes eventos estão a deixá-lo inexplicavelmente nervoso, o que o leva a ter insónias recorrentes. Quando casualmente lhe perguntei o que achava do problema do efeito de estufa provocado pelo dióxido de carbono e outros gases, respondeu-me que se estava a marimbar, pois quando isto der o estouro ele já não será vivo. Decididamente há coisas que desisti de entender. É altura de fazer uma confissão. Esta história de eu e o Tavares termos sido parceiros em negócios escuros, de sermos pessoas que não prestam é uma invenção. Foi um recurso estilístico para aumentar a tensão narrativa, pois os textos têm vindo a ficar chatos.
|
|
|
|
|
|
Olá Carmo! Sou o João Maneta. Não sei se te lembras, passámos uma temporada juntos na prisão de Caxias. Escrevo só para te dar um abraço. João
Exmo Sr. Durante dois anos o meu advogado disse-me por três vezes, na cara, que tinha metido um processo em Tribunal, o que não era verdade. Quando soube disto não queria acreditar. Ele desculpou-se dizendo que o meu caso era uma bagatela. Fiquei em estado de choque. Não era possível que me tivesse acontecido tal absurdo. Comecei a ter sentimentos de culpa. Será que fiz alguma coisa de errado? Só o que dá lucro é que é bom? Escrevo-lhe pois preciso de consolo. Carlos Meireles - Vila Real
Exmo Sr. Estou mesmo chateado. Já não é a primeira vez que me recusam emprego quando digo que resido na Pedreira dos Húngaros. Se não me dão trabalho porque moro num bairro problemático como vou viver? Tó Santos
|
|
|
|
|
|
|
TEMA 1 |
|
|
Contradições humorísticas na teoria electro-magnética de Maxwell. |
|
TEMA 2 |
|
|
A problemática do absoluto na obra de construção civil. Resposta ao nº 220 deste sítio
|
|
|
|
Na crónica anterior fizemos um inquérito sobre se o leitor aceitava a pobreza só para os outros ou também para si. Mais uma vez, por deficiências técnicas, o inquérito foi inconclusivo. O item mais votado foi o que dizia que o inquérito já estava a irritar. |
|
|
[ HOME ]