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CRÓNICA 6

 

 

O COMPORTAMENTO ANIMAL

A CEGUEIRA INTELECTUAL

 

 

A cegueira intelectual é um comportamento que, inexplicavelmente, afecta pessoas de nível cultural alto. O exemplo que vou dar é paradigmático.

Tenho um conhecido, pessoa simpática, que tem um curso superior. Considera-se democrata, anti-fascista e defensor dos trabalhadores.

Quando lhe disse que na ex-União Soviética não havia democracia: liberdade de expressão, direito à greve...ele torceu o nariz.

Afirmou que a democracia lá era diferente da ocidental. As pessoas podiam manifestar as suas ideias e não existiam greves pelo simples motivo de que não havia razão para isso. Os trabalhadores tinham os seus direitos garantidos: educação e saúde gratuitas, emprego, etc. Um verdadeiro mar-de-rosas.

Como é possível escamotear tão grosseiramente a realidade, mitificá-la, ter o pensamento cristalizado, sem flexibilidade? Apetece dizer que de boas-consciências está o Inferno cheio. Como afirmámos na crónica 2, a Teoria do Conhecimento prova que não há maior cego do que aquele que não quer ver.

Se quisesse armar-me em erudito, diria que o seu aparelho conceptual só lhe permitia ver as coisas daquela maneira.

Quando trouxeram fósseis humanos ao paleontólogo Cuvier, este não lhes ligou, pois não se enquadravam na sua teoria criacionista do aparecimento das espécies.

 

CARTAS DO LEITOR

 

 

Exmo Sr.

Não compreendo como pode existir cultura e civilização quando há pessoas na pobreza ou sem qualidade de vida. Sou totó?

A despropósito, o que é o formalismo cultural?

João Semana - Paderne

Exmo Sr.

O meu filho, «en passant» (de passagem), disse-me que não existe desenvolvimento sem humanismo e direitos humanos. A minha capacidade de pensamento abstracto é limitada demais para atingir a profundidade de tal afirmação. Esta variável do desenvolvimento vem nos manuais de teoria económica? Parafraseando o economista Jeffrey Sachs: “características mais básicas e centrais da realidade económica podem ser negligenciadas por economistas académicos”? Digo isto, também, porque li que os economistas do séc. XIX debruçavam-se sobre os aspectos técnicos, mecânicos da economia e eram cegos à tragédia social (miséria) da revolução industrial, apesar do aumento exponencial da produtividade. O facto de se produzir riqueza não quer dizer que esta é distribuida por todos?

Santos Nobre - Serpa

 

PSEUDO-ANEDOTA

 

Numa corrida de barcos a remos, internacional, é dado o tiro de partida. Todos se movimentam menos um. As pessoas aproximam-se para ver o que se passa. Na embarcação portuguesa cada um remava para seu lado.

 

INQUÉRITO

 

Assinalar uma cruz (a tinta preta) no quadrado respectivo.

O leitor aceita que haja pobreza?

  • Sim
  • Não

Se respondeu sim o inquérito continua para si.

  • Aceita a pobreza desde que não sejam os seus filhos a passar fome.
  • Este inquérito está a irritar-me

 

FRASE DA SEMANA

 

"Todos somos portugueses, mas uns são mais iguais que outros."

 

TEMA DA PRÓXIMA CRÓNICA

 

Introdução à Economia subterrânea.

 

APÊNDICE (leitura facultativa)

 

 

Exmo Sr.

Li que pouco antes do aparecimento da teoria do evolucionismo de Darwin, um professor universitário escreveu um livro de algumas centenas de páginas, sobre a teoria da geração espontânea, a qual se veio a revelar falsa: as larvas que apareciam na matéria orgânica em putrefacção provinham de ovos postos ali por insectos. Fiquei com pena do homem.

Daqui conclui-se que de nada vale construir arranha-céus se as fundações estiverem mal feitas? Tal pode acontecer com a teoria económica?

Carlos Teodósio – Paranhos

SABIA QUE

para o prémio Nobel da Economia Stiglitz (2001) «flexibilidade laboral» é o nome de código para salários baixos e precariedade laboral?

O leitor acredita na treta de que os salários baixos e a precariedade laboral são condição para a competividade e modernização da economia? Com a flexibilidade laboral um empregado é um potencial desempregado e excluído social? Está feito ao bife?

Conheço um sindicalista que diz que a flexibilidade é como estender a mão e quererem-nos comer o braço.



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