Um sítio oftalmológico (trata da cegueira intelectual)

 

CRÓNICA 5

 

 

CONTINUAÇÃO DO ESTUDO DO COMPORTAMENTO ANIMAL

 

 

Vocês vão dizer que sou uma pessoa amarga, desiludida, mas afirmo que vivemos num mundo cão, de muita sacanagem. Há falta de humanismo. As pessoas são frias e calculistas. Não há corações puros. Não sei se o Eixo do Mal triunfará sobre o Bem.

Vou contar um incidente que se passou comigo.

Estava em Granada (Espanha). Tinha dormido mal e saira do hotel indisposto. O calor começava a apertar (era Verão). Estavam criadas as condições para eu fazer a mais desastrada manobra da minha história automobilística.

Entro no carro. Ao fazer marcha-atrás bato num automóvel. Avanço, pensando que tinha espaço para sair, e bato no da frente. Recuo e finalmente piro-me sem dizer água vai. Felizmente ninguém passava na rua. Os donos dos carros que se amanhassem.

Passados meses a história foi outra. Um palerma qualquer, ao sair do estacionamento, meteu para dentro a porta do meu automóvel novinho em folha. Passei-me, espumava de raiva. O tipo não tinha tido a hombridade de deixar um bilhete, o cobarde. Ninguém assume responsabilidades. Todos sacodem a água do capote.

Isto faz-me lembrar algumas companhias de seguros que quando têm de desembolsar grandes quantias obrigam os segurados a pô-las em tribunal. Ética? O que é isso?

 

 

MORAL DA HISTÓRIA

 

Como dizia uma amiga minha, "Com o mal dos outros passo eu bem". Há uma cultura do individualismo. Muitos são egoístas, apenas pensam no seu umbigo; não se preocupam minimamente se os filhos dos outros morrem literalmente à fome; somente lutam pelos seus interesses individuais ou corporativos; apenas dizem "Ai!" quando lhes pisam os calos. Caem no erro tremendo de julgar que a qualidade de vida é apenas uma questão pessoal e não social. Quem tem vistas curtas sofre as consequências. O individualismo, ao contrário da acção cooperativa, é menos eficaz em termos de qualidade de vida. Uma cultura individualista é um impedimento ao desenvolvimento.

Uma antiga primeira-ministra britânica defendia que "Não há sociedade, mas, indivíduos". Cada um que se safe. É a roleta social.

Pintura pirosa de Granada

 

CARTAS DO LEITOR

 

Exmo Sr.

Pareceu-me ouvir, um destes dias, no Telejornal, que, na Terra,segundo a UNICEF, uma em cada duas crianças vive na pobreza.

Se o ser humano é inteligente bem pode limpar as mãos à parede? Este é o Mundo da Vergonha?

A minha prima Antonieta diz que, por virtude de uma evolução cultural insuficiente, de uma incapacidade cultural, o Planeta caminha alegremente para o suicídio, tal como o Titanic que se afunda e que o ser humano é uma espécie em vias de extinção. Ela é uma pessimista inveterada?

Luisa Anastácio (Estarreja)

 

Exmo Sr.

Andei várias semanas a tentar compreender a diferença entre capitalismo e capitalismo selvagem, em vão. Por brincadeira, perguntei ao meu sobrinho João Pedro, de 10 anos, se sabia a diferença. Ele, para surpresa minha, disse que segundo o relatório de 2005, da UNICEF, os Estados Unidos tinham mais de 20% das crianças na pobreza, enquanto na Suécia, Finlândia e Noruega esse número era cerca de 3%.

Também afirmou que a actual globalização é a economia-mundo dos salários de pobreza e que é preciso uma economia amiga do ambiente e do ser humano.

 O miúdo vai longe?

António Lampião (Sousel)

Nota: Na Suécia a despesa pública é superior a 50% do PIB. Nos Estados Unidos andará abaixo dos 30%. Isto parece demonstrar que menos Estado não é melhor Estado, contrariamente ao que agora está na moda dizer.

 

ESCLARECIMENTO

 

 

Escreve-nos um leitor a dizer que a experiência de Pavlov não se passou bem como a contámos.

Não é que não queiramos dar o braço a torcer ou a mão à palmatória, por muito que nos custe. Acontece que as coisas aconteceram (passe a redundância) como nós a descrevemos, pois assistimos à experiência. A prova disso é que tirámos a fotografia ao cão de Pavlov, que tem o bonito nome de Sputnik.

Se há coisa que muito prezamos é a verdade e a honestidade intelectual. Não somos cínicos. Além do mais, todas as nossas informações são avaliadas pelo departamento científico.

 

FRASE DA SEMANA

 

Flexibilidade laboral é...

tudo o que a imaginação quiser.

 

PASSATEMPO

 

Qual destas frases é verdadeira?

Assinalar com uma cruz (a tinta preta) no quadrado respectivo.

  • Portugal, uns bem, outros mal
  • Portugal, uns mal, outros bem
  • Portugal, nem todos estão bem
  • Há verdades inconvenientes

Só por curiosidade, à medida que se desce na escala social o nível de mortalidade prematura (antes dos 65 anos) aumenta. Será difícil adivinhar que este valor é alto nos sem-abrigo?

PERGUNTA

O facto de Portugal ser um dos países da União Europeia com mais desigualdade é um mau presságio?

 

Nota: Em Portugal os 20% mais ricos recebem 7,5 vezes mais rendimento que os 20% menos ricos. Na Finlândia esse valor é apenas 3,6. Este indicador e outros, como o baixo nível de escolaridade dos portugueses (incluindo os empresários), a fraca qualidade do investimento (sobretudo construção civil), baseada em mão-de-obra barata e pouco qualificada, não convidam ao optimismo. É triste, mas é verdade. Sem massa crítica nada feito. Não se pode ir à Lua de bicicleta.

 

 

 

 

TEMA DA PRÓXIMA CRÓNICA

 

A cegueira intelectual.

 

APÊNDICE (leitura facultativa)

 

Exmo Sr.

Escrevo-lhe apesar de já ter morrido. Nasci em 1500.

Uma coisa que sempre me chocou foi o facto de os portugueses irem a África buscar escravos para trabalhar nas plantações de açúcar no Brasil.

No entanto estava optimista. Sendo os portugueses cristãos, com certeza seriam almas sensíveis e dar-se-iam conta do quanto desumano é o trabalho escravo, coisa tão óbvia. Assim lancei uma campanha visando a abolição da escravatura, que durou quase toda a minha vida.

Fiz manifestações (pacíficas) contra o trabalho escravo, recolhi abaixo-assinados, colei cartazes, contactei todas as autoridades civis, militares e religiosas possíveis e imagináveis, mas sem sucesso. Por vezes, não sei porquê, senti alguma hostilidade.

Já no fim da minha vida, alguém me disse que o que comanda a vida não são o sonho e a verdade, mas os interesses. Percebi então a razão do meu fracasso.

Pêro da Covilhã

Já depois de esta carta ter aparecido na Internet, alguns leitores alertaram-nos para o facto de a mesma conter algumas imprecisões históricas, o que os levava a duvidar da sua autenticidade.

Esclarecemos, no entanto, que este sítio não é de História, de Economia ou de algo do género.




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